Infertilidade e Maternidade

Há 6 anos fui diagnosticada com trompas interrompidas…E desde então começou uma jornada de cai, levanta, morre e começa de novo.

Durante todos esses anos foi um show de eu não sou uma mulher completa, eu nem queria mesmo ser mãe, por que está acontecendo isso comigo, eu odeio crianças, tudo acontece comigo, eu quero muito ser mãe, porque todos me perguntam porque eu não tenho filhos ainda, vai pro inferno essa estória de de gravidez. Foram tantas altos e baixos que dariam um livro.

Foi na base de muita terapia pra aguentar o tranco. Tive pessoas muito especiais no meu caminho. Mas a grande parte do tempo me sentia completamente sozinha.

Logo que eu soube do diagnóstico fiquei sem ar por mais ou menos um ano. Entrei num espiral de ódio e descrença tão profundo que simplesmente bloqueei da minha mente. Eu só pensava no medo que tive todos os anos que precederam a decisão de engravidar. Todos aqueles anos tomando anticoncepcionais nocivos por meu corpo. O quanto havia escutado da minha mãe: “Minha filha não vai engravidar pois isso vai estragar tua vida, tua carreira, teus sonhos.”. E agora a realidade se apresentava tão diferente do que havia pensado, a expectativa era parar de tomar pílula e engravidar quase que num susto. A realidade porém era que meu corpo tinha uma falha técnica que implicava ser quase impossível gerar filhos sem ajuda médica.

Eu, tão auto-suficiente, controladora, planejadora de todos detalhes da minha vida e que nem tinha certeza absoluta que queria ser mãe fui convidada a enfrentar esse desafio tremendo.

Conforme o tempo foi passando, encontrei algumas mulheres com histórias parecidas no meu caminho. E aos poucos, foi se formando esse grupo secreto e “invisível” de mulheres sonhadoras, lutadoras, e com um sonho de um dia ser mãe. Mulheres profissionais foda, com vidas ricas em experiências, que tinham quase tudo. Todas nós tínhamos um segredo e uma dor imensa guardado dentro da gente. Todas nós estávamos numa luta paralela a todo as as outras lutas do dia-a-dia.

Não fazíamos parte nem do grupo de mulheres que eram mães, nem do grupo que não pensavam/queriam ser mães. Fazíamos parte desse grupo que ninguém fala, que a gente não fala, porque falar seria compartilhar um dor tão grande e uma jornada que outros não entendem. Éramos parte do grupo de mulheres que tínhamos dificuldade de engravidar (e acreditem somos muitas). O grupo que apesar de uma grande vontade, um grande sonho, ou as vezes só por pressão dos outros queríamos engravidar mas não era tão simples assim. Precisamos transpor limites, nos jogar no incerto, enfrentar tratamentos médicos invasivos que tiravam todo o romantismo de engravidar.

Nessa jornada, eu na maior parte do tempo vivi me questionando sobre se eu realmente queria ser mãe, o que era ser mãe pra mim e como a sociedade é cruel em reduzir uma mulher a ser reprodutora humana. Pois além do sonho de ser mãe, eu tinha outros sonhos também. E ninguém perguntava deles. Não importava quão bem sucedida eu era, se eu tinha um casamento feliz, uma vida feliz. As pessoas ao redor sem nem pensar falavam frases do tipo agora só falta tu engravidar, tá na hora hein se não vais estar muito velha pra criar teus filhos, olha lá teu marido vai acabar engravidando outra, e tanto outros absurdos que e melhor nem lembrar.

A minha vontade na época era de responder, amig@ deixa eu te contar uma coisa eu tenho mais planos na vida que só engravidar e mesmo que isso fosse a única coisa que eu quisesse na vida, EU NÃO POSSO ENGRAVIDAR SEM AJUDA MÉDICA . Nem todo mundo nasceu pra gestar.

Hoje olhando pra trás penso, sim essa sociedade é muito cruel. E me pergunto qual o meu papel nessa vida, já que ninguém passa por nada por acaso. Penso que tudo que posso oferecer de volta pro universo é a minha história, onde depois de muito lutar consegui engravidar de minhas pequenas. E não tenho dúvida, quero ser o apoio nessa jornada de tantas outras mulheres que estejam passando por isso. Quero tocar e abrir essa ferida para que ela seja ao menos normalizada e não estigmatizada. Portanto, me abro como um botão de flor para ser o ombro, o ouvido, o abraço acolhedor na hora que precisarem. Pois ter uma rede de apoio nessa jornada não tem preço.

Manas eu as honro. Estou aqui pra todas que precisarem. Pois juntas somos mais fortes.

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